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Cuidado renal, dois Brasis: como o frio do Sul e o calor do Norte mudam o tratamento

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Créditos da Foto: Divulgação

Enquanto Santa Catarina enfrenta geadas, o Tocantins vive máximas acima de 35 graus; nefrologistas da Fundação Pró-Rim, que atende pacientes nos dois extremos, explicam o que muda e o que permanece no tratamento renal em cada clima
No mesmo mês em que o catarinense tira o casaco pesado do armário para enfrentar mínimas abaixo de 10 graus, o tocantinense se protege de um sol que passa dos 35 graus e lota as praias de rio. O contraste, que costuma render boas imagens de telejornal, tem uma dimensão menos visível: para as pessoas que convivem com doença renal crônica, cada um desses climas impõe riscos próprios, e o cuidado que salva em uma região pode precisar ser invertido na outra.


Poucas instituições observam esse fenômeno tão de perto quanto a Fundação Pró-Rim, que mantém unidades em Santa Catarina e no Tocantins e acompanha, ao mesmo tempo, pacientes que enfrentam a geada e pacientes que enfrentam a seca. Dois nefrologistas da instituição, um em cada extremo do termômetro, ajudam a entender o que muda e o que permanece no cuidado com os rins.


O pano de fundo é o mesmo nos dois estados. A doença renal crônica é considerada um dos grandes desafios silenciosos da saúde pública: segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 10 pessoas no mundo convive com algum grau da doença; no Brasil, boletins do Ministério da Saúde estimam prevalência em torno de 6,7% entre adultos quando são usados critérios laboratoriais, com porcentagens maiores em idosos. Hipertensão e diabetes seguem entre os principais fatores de risco.

Créditos da Foto: Divulgação
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No Sul, a sede que desaparece
Em Santa Catarina, o inimigo do inverno é discreto: a sede que some. Segundo a nefrologista Amanda Meyer da Luz, inscrita no CRM-SC 28897 e RQE 28727, que atua na Fundação Pró-Rim no estado, a estação muda o comportamento do corpo e da rotina.
“Nessa época do ano, as pessoas costumam sentir menos sede e ficam mais tempo em ambientes fechados, e aumenta a circulação de vírus respiratórios, como os da gripe.”


O resultado, explica a médica, aparece nos rins por mais de um caminho.
“Para quem ainda possui função renal, ingerir pouca água pode favorecer a desidratação e até piorar a função dos rins. O frio pode favorecer um aumento da pressão arterial. Pacientes idosos também podem ter maior risco de desidratação, justamente porque acabam ingerindo menos líquidos.”

Créditos da Foto: Divulgação
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As infecções respiratórias completam o quadro de inverno, relata a nefrologista.
“Gripe, covid-19, bronquite e pneumonia podem levar à piora da função renal e aumentar a necessidade de internação. Também observamos mais casos de descompensação da pressão arterial, sobrecarga de líquidos em pacientes que faltam à diálise e complicações cardiovasculares, que são mais comuns durante épocas de frio.”
No Norte, a sede que sobra


A cerca de 2 mil quilômetros dali, o desafio é o espelho invertido. No Tocantins, avalia o nefrologista Winglerson dos Santos Cordeiro, inscrito no CRM-TO 3506 e RQE 3528, que atua na Fundação Pró-Rim no estado, o corpo pede exatamente aquilo que muitos pacientes não podem ter em abundância.


“O clima quente do Tocantins é um grande desafio para nossos pacientes renais crônicos, principalmente os pacientes dialíticos. O calor estimula a sede, principalmente naqueles que têm restrição hídrica. A sensação de sede é maior, o consumo de líquidos é maior. O risco de complicações hemodinâmicas também aumenta.”
O excesso de líquido entre uma sessão de diálise e outra, alerta o médico, pode ter consequências graves.
“O principal desafio do dialítico no Tocantins é justamente não ingerir aquela quantidade de líquido que o organismo pede. Temos várias complicações possíveis, edema agudo de pulmão, crise hipertensiva, risco elevado de eventos cardiovasculares e até desidratação em alguns casos.”


Para conviver com a sede sem ultrapassar o limite definido pela equipe de diálise, ele ensina estratégias práticas.
“Temos algumas formas para driblar a sede, consumo de gelo, ficar em ambiente com ar condicionado, gomas de mascar, usar garrafinhas com medida de volume determinado, entre outras.”

Créditos da Foto: Divulgação
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O mesmo paradoxo, em versões opostas
Curiosamente, os dois climas produzem armadilhas parecidas à mesa, cada um com seus símbolos regionais. No Sul, o risco veste a estação fria, lembra a nefrologista catarinense.
“Uma tigela de sopa ou uma caneca de chá entra no cálculo diário de líquidos. O paciente não precisa deixar de consumir alimentos típicos do inverno, mas deve respeitar o limite orientado pela equipe de diálise.”
No Norte, o papel das sopas e do chimarrão é ocupado pelas frutas do verão e pela água de coco, aponta o nefrologista tocantinense.


“Os pacientes dialíticos devem ter muito cuidado devido à quantidade de líquidos nas frutas, principalmente melancia, melão, água de coco, abacaxi, laranjas. Não podemos esquecer da quantidade de potássio existente nessas frutas. Esse potássio pode levar a complicações gravíssimas, inclusive óbito.”
Em comum, os dois médicos apontam ainda o sódio como vilão silencioso: no inverno, escondido nos embutidos, caldos e queijos das receitas de frio; no verão, nas farofas de carne de sol, na carne seca e nos temperos industrializados. Nos dois casos, o sal aumenta a sede e a retenção de líquidos, e a saída é a mesma: seguir a dieta individualizada definida com a nutricionista da equipe de diálise.


O que não muda em nenhum termômetro
Se os riscos trocam de sinal conforme a região, as regras de ouro do tratamento são as mesmas nos dois extremos do país. A primeira delas: a diálise não pode esperar o tempo melhorar. Em Santa Catarina, o recado da nefrologista vale para os dias de geada.


“O frio não deve ser motivo para faltar à hemodiálise. Cada sessão é essencial para retirar toxinas e excesso de líquidos do organismo. A ausência pode provocar falta de ar, aumento do potássio no sangue, sobrecarga do coração e outras complicações graves que podem colocar a vida em risco.”


A segunda regra comum é conhecer os sinais de alerta e agir rápido, resume o nefrologista do Tocantins.
“Ao perceber sensação de dispneia, falta de ar, edemas no corpo, inchaço, aumento súbito do peso, cãibras, confusão mental, fraqueza intensa ou hipotensão, deve procurar imediatamente o serviço de urgência.”


E a terceira é manter o acompanhamento regular, seja qual for a estação, reforça a médica catarinense.
“O mais importante é manter o acompanhamento programado e procurar atendimento antes da consulta marcada caso apareçam sintomas novos. O acompanhamento regular permite identificar precocemente qualquer mudança e evitar complicações.”


No fim, os dois nefrologistas chegam à mesma conclusão por caminhos opostos: o clima muda o cuidado, mas não muda o compromisso com o tratamento. Do Sul, a síntese é da Dra. Amanda.
“Pequenos cuidados fazem uma grande diferença. Quanto mais bem controlada estiver a doença renal, menor será o risco de complicações e melhor será a qualidade de vida.”
Do Norte, o Dr. Winglerson devolve com o espírito do verão tocantinense.
“Fique firme, esse período vai passar. Use roupas leves. Se divirta sem fugir das restrições.”

*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião deste portal.

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